“Geopolítica, tarifas, novas regulações e cadeias produtivas redesenham o mapa mundial da indústria de móveis”

Durante décadas, boa parte da lógica do comércio internacional de móveis poderia ser resumida em uma pergunta: onde é possível produzir bem e mais barato?

A pergunta continua válida. Mas já não é suficiente.

O comprador internacional precisa saber de onde vem a madeira, qual o risco de uma cadeia excessivamente concentrada, quanto uma nova tarifa pode alterar o custo de importação, quais informações deverão acompanhar o produto e se o fornecedor estará preparado para atender regras ambientais que sequer existiam quando muitas das atuais cadeias globais foram estruturadas.

O mundo do móvel entrou em uma fase na qual custo, design e qualidade continuam fundamentais, mas dividem espaço com geopolítica, segurança de fornecimento, rastreabilidade, regulação ambiental, tecnologia e capacidade de adaptação.

Não se trata do fim da globalização. Trata-se de uma globalização mais complexa – e muito mais estratégica.

Quando o móvel virou questão de segurança nacional

Poucos acontecimentos ilustram tão claramente essa mudança quanto o que ocorreu nos Estados Unidos.

Em 2025, o governo norte-americano utilizou a Section 232 do Trade Expansion Act, mecanismo relacionado à segurança nacional, para impor tarifas sobre produtos de madeira. Entre os produtos atingidos estavam determinados móveis estofados, armários de cozinha e gabinetes de banheiro, submetidos a uma tarifa adicional de 25%. The White House

O aumento posteriormente previsto para janeiro de 2026 – 30% para determinados estofados e 50% para armários e gabinetes – acabou sendo adiado por mais um ano enquanto os Estados Unidos mantêm negociações com parceiros comerciais. As tarifas de 25%, entretanto, permanecem. The White House

O episódio representa mais do que uma mudança tarifária.

Quando móveis e produtos de madeira passam a integrar uma discussão formal sobre segurança nacional, fica evidente que o comércio deixou de ser tratado exclusivamente como uma questão de eficiência econômica.

Essa transformação ultrapassa o setor moveleiro. O World Trade Report 2026, da Organização Mundial do Comércio (OMC), identifica justamente a crescente intervenção dos governos, as tensões geopolíticas, a digitalização, as questões ambientais e a complexidade das cadeias globais de valor entre as forças que estão pressionando o sistema multilateral construído nas últimas décadas. Organização Mundial do Comércio

A interdependência, observa a OMC, passou também a ser enxergada sob a perspectiva da segurança.

A cadeia mais barata pode não ser a mais segura

Essa mudança altera uma das equações básicas da indústria.

Durante a grande expansão das cadeias globais, empresas procuraram eficiência, especialização e redução de custos. A concentração da produção em determinados países era frequentemente uma consequência lógica dessa estratégia.

Hoje, concentração também significa risco.

Conflitos geopolíticos, tarifas, gargalos logísticos, restrições comerciais, mudanças regulatórias e dependência excessiva de determinados fornecedores acrescentaram novas variáveis à decisão sobre onde produzir e de onde comprar.

A própria OMC aponta que preocupações relacionadas à concentração das cadeias, rivalidade tecnológica e segurança econômica vêm levando governos a procurar reduzir determinadas dependências externas e controlar fluxos de tecnologia e investimentos. Organização Mundial do Comércio

Isso não significa que as cadeias globais estejam desaparecendo. Significa que estão sendo reavaliadas.

Para a indústria de móveis – caracterizada por produtos volumosos, custos logísticos relevantes e forte presença de matérias-primas naturais – essa reavaliação pode ter efeitos particularmente importantes.

A China continua no centro – mas os fluxos estão mudando

A China permanece incontornável na indústria mundial de móveis. Na União Europeia, por exemplo, ela já responde por mais da metade das importações de mobiliário provenientes de fora do bloco, segundo a própria Comissão Europeia. Mercado Interno e PME

Os números ajudam a dimensionar essa presença. Em 2025, apenas a categoria europeia que reúne móveis, iluminação, bedding, colchões e construções pré-fabricadas respondeu por € 21,3 bilhões em importações provenientes da China. European Commission

Mas a questão já não é simplesmente substituir a China.

Vietnã, México, Turquia e outros polos industriais ganharam relevância em diferentes mercados e categorias. Empresas passaram a combinar fornecedores, aproximar parte da produção dos mercados consumidores e diversificar origens.

O novo desenho tende a ser menos uma transferência completa de um país para outro e mais uma diversificação do risco.

A Europa está mudando a porta de entrada

Enquanto os Estados Unidos mostram como a geopolítica pode alterar tarifas, a Europa oferece outro exemplo de transformação: o acesso ao mercado começa a depender cada vez mais da informação que acompanha o produto.

Duas siglas merecem entrar definitivamente no vocabulário da indústria moveleira mundial: EUDR e ESPR.

E elas tratam de coisas diferentes.

A primeira olha especialmente para a origem de determinadas matérias-primas. A segunda começa a construir novas regras para o próprio produto.

EUDR: saber de onde veio a madeira

O EU Deforestation Regulation (EUDR) tem como objetivo impedir que determinados produtos comercializados ou exportados pela União Europeia estejam associados a desmatamento ou degradação florestal.

A madeira está entre as sete commodities abrangidas pelo regulamento, assim como diversos produtos derivados – entre eles categorias de mobiliário. Os operadores envolvidos na colocação dos produtos abrangidos no mercado europeu deverão demonstrar que eles não são provenientes de terras recentemente desmatadas ou associadas à degradação florestal e que foram produzidos de acordo com a legislação pertinente do país de origem. Environment

Após adiamentos e ajustes, a aplicação está prevista para 30 de dezembro de 2026 para grandes e médios operadores e para 30 de junho de 2027 para a maior parte dos micro e pequenos operadores. Environment

Para o setor moveleiro, a mensagem é relevante: conhecer a origem da madeira deixa progressivamente de ser apenas uma boa prática ambiental e passa a integrar as condições concretas de acesso a determinados mercados.

ESPR: agora o produto entra em cena

A segunda transformação pode ser ainda menos conhecida pela cadeia moveleira brasileira.

O Ecodesign for Sustainable Products Regulation (ESPR) estabelece um novo marco europeu para requisitos de sustentabilidade aplicáveis aos produtos.

E o mobiliário está entre as categorias prioritárias do primeiro plano de trabalho 2025–2030 da Comissão Europeia, ao lado de produtos como aço, alumínio, têxteis, pneus e colchões. Green Forum

O objetivo é muito mais amplo do que simplesmente determinar se um produto utiliza determinado material.

O ESPR permite estabelecer requisitos relacionados a aspectos como durabilidade, circularidade, reparabilidade, eficiência no uso de recursos, conteúdo reciclado e informações sobre sustentabilidade. Um dos instrumentos previstos é o Digital Product Passport – DPP, o Passaporte Digital do Produto. Green Forum

Para móveis, a Comissão trabalha atualmente com 2028 como data indicativa para a adoção do ato delegado específico da categoria. Colchões aparecem na programação para 2029. Mercado Interno e PME

Há uma distinção importante: isso não significa que todo móvel já esteja obrigado a possuir um passaporte digital em 2028. A própria Comissão esclarece que a inclusão no plano de trabalho inicia o processo de avaliação e elaboração das regras específicas. O ato delegado é que determinará os requisitos finais e a data efetiva de cumprimento. Mercado Interno e PME

É uma diferença técnica, mas fundamental.

O móvel começa a ganhar identidade digital

O conceito do DPP ajuda a entender para onde a regulação europeia está caminhando.

O passaporte funcionará como um conjunto estruturado de informações digitais associadas ao produto. Dependendo das regras específicas de cada categoria, poderá reunir informações relevantes para sustentabilidade, composição, durabilidade, reparabilidade e rastreabilidade ao longo da cadeia. Mercado Interno e PME

E isso já deixou de ser apenas arquitetura regulatória.

Em julho de 2026, a Comissão Europeia colocou em funcionamento o Digital Product Passport Registry, infraestrutura destinada ao registro dos identificadores e metadados dos passaportes digitais. Mercado Interno e PME

Para fabricantes de móveis que pretendem atuar na Europa nos próximos anos, portanto, tecnologia da informação começa a se aproximar de comércio exterior.

A fábrica continuará precisando produzir uma boa cadeira.

Mas poderá precisar produzir também informação confiável sobre essa cadeira.

Da rastreabilidade da árvore à rastreabilidade do móvel

É aqui que EUDR e ESPR, embora sejam regulamentações distintas, ajudam a revelar uma mudança maior.

A primeira reforça a importância de conhecer e comprovar a origem de determinadas matérias-primas. A segunda avança sobre características, desempenho e informações associadas ao próprio produto.

Vistas em conjunto, mostram uma tendência clara: a cadeia física e a cadeia de informação estão se aproximando.

Para fornecedores e fabricantes, isso pode significar integração maior entre compras, produção, documentação, sistemas digitais, engenharia de produto e sustentabilidade.

A rastreabilidade deixa de terminar na floresta.

Ela começa a chegar ao móvel.

O Brasil já está sentindo a mudança

Para a indústria brasileira, esse novo tabuleiro não é uma abstração.

Em 2025, as exportações brasileiras de móveis e colchões atingiram US$ 769,3 milhões, crescimento de apenas 0,8%. Os Estados Unidos continuaram sendo o principal destino, mas sua participação caiu de 29,6% das exportações em 2024 para 23,5% em 2025. Abimóvel

A mudança ficou ainda mais evidente em 2026.

No primeiro semestre, as exportações brasileiras de móveis e colchões recuaram 6,5%, para US$ 349,7 milhões. As vendas aos Estados Unidos caíram cerca de 42%, reduzindo a participação americana nas exportações brasileiras do segmento para 17,4%. Ao mesmo tempo, as importações brasileiras de móveis e colchões aumentaram 41,7%, com forte presença dos produtos chineses. Abimóvel

É quase uma fotografia perfeita do novo cenário: tarifa em um mercado, redirecionamento de fluxos em outro e pressão competitiva chegando também ao mercado doméstico.

Onde o Brasil entra nesse novo mapa?

A resposta exige algum cuidado.

O novo cenário internacional não garante vantagem ao Brasil.

Mas altera o valor relativo de alguns atributos que o país possui.

Uma ampla base de florestas plantadas, produção doméstica de painéis, disponibilidade de madeira, indústria instalada, certificações florestais e experiência exportadora podem ganhar importância em um mercado preocupado com diversificação de fornecedores, origem dos materiais e segurança de abastecimento.

Por outro lado, esses ativos não eliminam desafios conhecidos.

Competitividade industrial, produtividade, custo logístico, prazo de entrega, desenvolvimento de produto, presença comercial internacional e capacidade de cumprir novas exigências documentais e digitais continuam determinantes.

A oportunidade, portanto, não está simplesmente em ocupar o espaço deixado por outro país.

Está em se tornar uma alternativa confiável dentro de uma cadeia mundial que procura reduzir riscos sem abrir mão de competitividade.

O novo preço da competitividade

Talvez seja essa a maior transformação em curso.

Preço continua importando. Design continua importando. Qualidade continua importando.

Mas o comprador internacional começa a fazer outras perguntas.

De onde vem a madeira? O fornecedor consegue comprovar sua origem? Quanto risco existe naquela rota logística? Uma tarifa pode inviabilizar o produto? O fabricante consegue atender às novas regras europeias? Seus sistemas conseguem produzir as informações exigidas? Há escala? Há regularidade? Há alternativas caso alguma parte da cadeia seja interrompida?

A indústria moveleira passou décadas aperfeiçoando a resposta para uma pergunta fundamental: quanto custa produzir?

O novo tabuleiro mundial acrescentou outra:

quanto custa o risco?

E compreender essa diferença pode ser tão importante para o futuro da indústria quanto fabricar um bom móvel.